A calma outonal

Chegou. Já não conseguimos dormir sem o aquecedor. As folhas começam a cair, o céu a escurecer e a chuva cada vez mais presente. A ventania, o silêncio, a floresta molhada e misteriosa. 

No chão, cogumelos de todos os tamanhos e cores. Uns comestíveis e outros venenosos, todos lindos e vistosos. 

No prato, sopa de cebola. No colo, a literatura do semestre. Eu gosto da calmaria do outono. Do encontro com meu eu que esse período me proporciona. Da calma.
Me faz voar em pensamentos, alguns nem tanto apropriados, mas ainda assim. Coisa que fica cá comigo e que se não fosse a situação quase anônima do blog, eu não partilharia por aqui. Tipo… porque é tão difícil fazer número dois em locais públicos? Ontem, na academia, foi sofrimento. Uma conhecida estava no vestiário e eu precisava me desfazer do almoço, se é que você me entende. Sendo que ali existe apenas 1 banheiro concorridíssimo e me concentrar sabendo que tem alguém lá fora atenta me dá muita aflição. O resultado é um trabalho fracionado, o que atrapalha o treino terrivelmente.

E já que o assunto é em torno das necessidades fisiológicas dos seres humanos, eu preciso dizer, ô coisa triste fazer polichinelo ou pular depois de parir duas filhas. Percebi a duras penas que preciso usar fraldas a cada treino!Urgente!!!

Escatologicamente falando, eu ainda sou daquelas que não faz as necessidades na frente do marido. Ele não liga a mínima e senta no trono sem cerimônias. Eu é que fecho os olhos e peço pra ele encostar a porta, porque ninguém merece né. Pois bem, ele sempre sai para trabalhar muito cedo, de modo quando acordo, posso liberar um torpedo sonoro sem medo de ser feliz. Nele vai toda a repressão, o controle e as amarras sociais que diz que mulher não pode peidar, arrotar nem cagá, avalie a violência do estrondo. O sorriso de alívio vai até a hora que percebo que ele ainda está tomando o seu café da manhã na cozinha e coooomm certeza ouviu aquele hino de liberdade matinal. As opções não são muitas. Culpar a filha número 1? A filha número 2? O cachorro? Colocar uma cara de emburrada porque a culpa foi dele por ainda estar ali (x)!!!!
Ok, chega de revelações outonais por hoje.
Imagens- Arquivo pessoal

Anúncios

O vestido azul

Anos de insatisfação, mais precisamente uns cinco. Me doei a maternidade, ao trabalho, aos estudos. Estresse, ansiedade, coisas de quem tá vivo. Como consequência, na balança tinha quase 100kg e eu não quis acreditar nos meus olhos. Eu já não tinha roupas para usar. Me escondia de fotos e filmagens. Ficar nua na frente de alguém? Nem da minha mãe. Eu não queria saber de balança porque o chocolate e o chips me traziam um bem estar incrível.

O momento em que tudo mudou foi quando eu estava em uma espécie de parque fechado com atividades para crianças. Lá tinha sofás e eu e meu marido estávamos brincando de empurrar um o acento do outro ( cadê a maturidade?). Eu conseguia empurrar o sofá dele, mas quem disse que ele conseguia empurrar o meu ? Eu estava me sentido a fortona, mas ele cortou o meu barato dizendo que isso nada tinha a ver com força e sim com o (meu) peso. E foi tomando coragem pra conferir quanto de fato eu tinha acumulado que eu cai na real. Constatei triste que nem quando estive grávida de 9 meses pesei tanto.

Decidi buscar ajuda. Procurei artigos e livros sobre reeducação alimentar, sobre os treinos e combinações de alimentos que saciam. Cortei o açúcar, a carne( pq eu só comia o pior tipo: salsicha e carne moída), também deixei de consumir arroz e pão branco. Mudei de academia e passei a frequentar aulas em grupo. Me apaixonei por esta vida fit. Faltando 2 semanas para três meses de RA, emagreci 10 fucking quilos.💪🏽🤙👌🏼🎊🎉🎈

Foi fácil? Foi não e ainda não é!Cada dia um desafio diferente. No início, a barriga roncava de fome acostumada com as porções gigantescas. Tive um deslize ou dois, até eu aprender que devo manter delícias lights na geladeira para momentos de crise.Teve muita gente chata da dieta tentando me fazer perder o foco e esse eu acho que de longe foi o desafio mais penoso. Eu tive que praticamente doutrinar certas pessoas, explicando todos os motivos pelo qual eu precisava emagrecer e que já é uma mega ajuda se a pessoa não insiste. Vi gente me provocando com sorvetão de chocolate e outras sobremesas, só pra me fazer cair em tentação. Pra você ver como a turma do contra é persistente, hoje recebi uma foto de um belo bolo de chocolate. A pessoa escreveu na foto que estava pensando em mim. Sacanagem ou brincadeiras a parte, a essas pessoas eu tenho uma homenagem secreta: o meu vestido azul maravilhoso que eu nunca tinha usado por não me entrar, hoje ele fechou o zíper nas costas bem facilmente!

A alegria que senti este momento histórico em minha vida é algo que me motiva até mais.

Eu posso imaginar que eu esteja sendo uma chata fitness( hahaha, sobre esse tipo eu posto numa próxima oportunidade) optando por alimentos magros e evitando bebidas alcoólicas e outras gordices, mas ao menos eu não insisto para que os outros façam isso. Também gostaria que o resto do universo tivesse o mesmo respeito. Como não é possível, vai da minha força de vontade extra que é entrar na calça jeans da época de solteira. Me aguarde, bebê!!

Imagem-Reprodução

Olhos marejados de amor

Cada vez que leio notícia de um atentado/ morte violenta, me dou conta do quanto que a vida é frágil. É nesse momento que orgulho, ostentação, mania de grandeza, vaidade, competição descem pelo buraco do esgoto e o que sobra é a vida sem aquela pessoa. O que importa o resto se ele/ela não está mais aqui? E os planos?Os sonhos? E a rotina de antes? Pensando em especial no garotinho Julian, como não fazer sua lancheira da escola? Como não preparar o seu material? Como assim brinquedos intocados, cama feita e casa arrumada? Como viver em um ambiente sem barulho, sem a gargalhada, sem toda aquela vida? Eu tenho duas meninas justamente nessa faixa etária incrível e me solidarizo com a mãe que ainda luta por sua vida no hospital. Me solidarizo por todos que já perderam um ente querido e que carregam o nó na garganta. Eu carrego o meu desde os 9 anos, quando perdi um irmão de 4 anos. Quando penso nele, dói como naquele dia.

Imagem- Arquivo pessoal

À uma adolescente de 70 anos

Ontem minha mãe fez 70 anos e posso afirmar que nunca a vi tão feliz e radiante como nos últimos meses. Acho que ela está tendo merecidamente a melhor época de sua vida. Isso porque teve uma infância difícil com um pai extremamente violento. Sua adolescência/início da fase adulta também havia muito controle, apesar de que ela bem curtiu bastante para a época.Ai veio a faculdade, preocupação com a carreira, um casamento/aprisionamento e os filhos. Veio a perda de um filho de 4 anos, um trauma para a vida toda. Veio o câncer de mama, veio a descoberta de uma traição, veio sofrimento e perseguição por anos. E veio ao fim dos 60 anos a carta de alforria que ela não queria dar: a separação. De início, sofreu. Parecia que a vida não tinha sentido, a casa estava vazia demais sem os filhos crescidos e o marido. Ela viajou. Conheceu o mundo e conheceu a si mesma, reconheceu que nessa vida não detemos o controle. Ela se permitiu viver. Se pôs bonita nos tratamentos estéticos, arranjou uma thurma pra chamar de sua e não passa em casa nos fins de semanas. Na verdade, a casa virou seu santuário, local onde cura sua ressaca e se prepara para a próxima aventura. Falando com ela ontem, eu pude perceber aquela felicidade sincera e debochada quando ela me disse que havíamos trocado de papéis: eu agora era ela antigamente ( preocupação com a carreira, filhos, responsabilidades, marido e o pacote todo) e ela era aquela Nara adolescente, sem preocupações e com um bilhão de amigos curtindo muito uma vida tão feliz. 

Sim, Mãe, você pode dizer que ao longo dos teus 70 anos finalmente você pode viver tranquilamente e curtir muito, sabendo que tudo que você fez para nos educar e proteger não foi em vão. Eu agradeço por todo o amor incondicional e por estar sempre ao meu lado, me orientando e guiando quando a falta de experiência de vida me colocava em becos sem saída. Você é incrível!!!


Parabéns!!!!
Imagem- Reprodução

Crença e declaração de amor ao mundo

Abri as cortinas do meu quarto. Deixei o sol entrar. Vi através da janela o vento balançando as folhas das árvores. Senti o calor do sol em minhas pernas. Acomodei-me preguiçosamente em minha cama. Muito conforto e tantos agradecimentos. A quem? A quem está no comando. A quem me permite viver tantos prazeres e tanta tranquilidade. Uma paz de espírito que se funde com uma preguiça. E eu penso em nossas crenças, nos que nos foi ensinado a acreditar, na obrigação de se ter uma posição religiosa, como se isso fosse definir quem eu sou.Se sou católica, faço parte do grupo. Se sou evangélica ou pertenço a outro credo, bom, pelo menos eu tenho uma religião. E se minha religião for uma enorme interrogação? E se eu tiver humildade suficiente pra reconhecer que “só sei que nada sei”?

Incertezas. Mesmo assim, aplaudo de pé o chefe da maquinaria, seja ele quem for. Apesar dos pesares, o mundo é um lugar incrível.

Apenas um dia qualquer de primavera

É mais claro e ensolarado, mas não quer dizer que tenha menos neve ou frio. A noite chega por volta das 19h e o dia, já às 6h. Já não preciso tanto do carro e até me arrisco em algumas caminhadas mais longas com Mr. Salsicha. 
Enquanto a cidade grande está assim…



Oslo, faculdade de ciências jurídicas



A roça onde moro ainda está assim 



A neve estava tão fofa que até arrisquei um boneco


Não é dos maiores porque não tenho coluna pra isso. Porém, tenho certeza que vai inspirar minhas meninas a tentarem um maior.

Falando em faculdade, terminei anteontem meu trabalho final. Simplesmente uma-semana-antes-do- prazo, para a surpresa de meus colegas de classe. A maioria nem começou. E lá fui eu explicar que eu tive que fazer tudo antes porque tenho duas filhas e não posso me dar ao luxo de me trancar em um quarto por uns 3-4 dias para escrever. Preciso contar que não tenho fins de semana disponíveis, que a escola pode fechar para dia de planejamento, crianças adoecem e etc. Tudo acontece quando se está com prazo curto. Além disso, eu preciso separar um tempo para a minha professora de norueguês revisar meus textos, né? Enfim, ter uma organização é tudo e eu aprendi a duras penas. Hoje, com a cabeça mais relaxada, fiz alguns outros deveres de casa, só que a apatia pós almoço me pegou de vez. Não contei conversa e vim aninhar-me embaixo do edredom. 

Pensei no dia atípico que eu tive ontem, um dia muito bacana e especial. Tenho uma colega de classe, uma norueguesa que eu conheci semestre passado. Acho que sentamos uma ao lado da outra duas vezes, mas a sintonia/química foi instantânea. Só que eu parei de frequentar as aulas porque elas passaram a ser publicadas em vídeos no site da universidade, de modo que perdemos o contato e nunca mais nos vimos. Este semestre, para minha surpresa, quem estava na minha aula obrigatória de criminologia? Ela mesmo! Incrível! 

Ai que ontem ela me chamou para tomar um café na minha cafeteria favorita e lá conversamos sem parar. Muitos foram os assuntos, de professores, matérias, trabalhos, profissões a família e relacionamentos. Eu me abri com ela sobre a minha dificuldade em relação ao norueguês acadêmico e ao mesmo tempo que me senti aliviada por tratar desse assunto com alguém além de meu marido, senti também um certo desconforto. É assim, eu aprendi que não podemos nos abrir 100% com as pessoas e ela, que eu não conhecia direito, sabia sobre minhas notas, de meus desafios e meus anseios profissionais( que também são os dela). Ora, eu até lhe passei todas as dicas para conseguir o trabalho que eu tinha no aeroporto!

É medo de ser usada, eu sei. Medo de me decepcionar mais uma vez, de levar uma rasteira e de me odiar por permitir que os outros me façam de besta. Tipo cachorro machucado, sabe? A pessoa vai dar um carinho, mas o levantar da mão, o pobre só lembra as porradas que levou.Eu sei bem..

Imagens- Arquivo pessoal

Valeu! Foi bom, adeus!

Estava amuada por estes dias. Coisas de amizades mal resolvidas, gente que a gente gosta, mas que não gosta da gente do mesmo jeito. Dói, viu? Não é a primeira nem será a última, mas toda vez que eu abro minhas entranhas, a pessoa entra de salto alto e samba. Não trata com o apreço que eu ( sei) que mereço. Pelo meu bem estar, eu desapeguei. Não tem tratamento vip nem minha atenção imediata de outrora. Simplesmente porque…


É o curso normal da vida, faz parte. Valeu! Foi bom, adeus!
Imagem- Reprodução